Como a acessibilidade pode gerar oportunidades de negócio para a sua empresa?

Conheça companhias que têm acessibilidade e inclusão como diferencial competitivo

Imagine a seguinte situação: você decide comemorar seu aniversário em um restaurante, leva todos os seus amigos e família para o jantar e, ao chegar no local, não consegue entrar. Por mais frustrante que seja, esse tipo de experiência é comum na vida de muitas pessoas. Como na do Bruno Mahfuz, por exemplo, que se tornou cadeirante em 2001 e, desde então, coleciona diversas experiências pela falta de acessibilidade.

A vivência na cadeira de rodas o fez perceber que uma experiência acessível não se restringe ao cumprimento das normas, mas sim a um conjunto de práticas que envolve infraestrutura, atendimento e, principalmente, a conscientização da sociedade sobre a importância do tema.

Pensando em trabalhar essa questão, ele criou um aplicativo colaborativo para consulta e avaliação da acessibilidade de estabelecimentos como restaurantes, supermercados, lojas, cinemas, teatros, baladas e hotéis.

Na solução, que roda em Azure – a Nuvem da Microsoft -, é possível avaliar se cada local tem estacionamento com vagas para cadeirantes, entrada facilitada para pessoas com dificuldade de locomoção ou banheiro adaptado para pessoas com deficiência, por exemplo.

Atualmente utilizado por mais de 20 mil brasileiros, o Guia de Rodas conscientiza e certifica espaços para propiciar uma vida mais autônoma para todos. “O aplicativo funciona como uma ferramenta de utilidade pública e oferece previsibilidade para que as pessoas possam planejar seus destinos com mais segurança”, afirma Mahfuz.

A iniciativa, inclusive, foi premiada pela ONU como a Melhor Inovação Inclusiva do Mundo, no World Summit Awards, evento global que homenageia as melhores práticas de inovação digital do mundo.

Foto em preto e branco do Bruno Mahfuz, fundador do Guia de Rodas. Ele está sorrindo e sentado em uma cadeira de rodas dentro de um supermercado.Bruno Mahfuz, diretor fundador do Guia de Rodas

Oportunidades de negócio

A preocupação com acessibilidade tem se tornado um diferencial estratégico para muitas empresas, que passaram a enxergar benefícios econômicos e colaborativos com a prática, além dos sociais.

O público do Brasil apresenta um enorme potencial para as empresas criarem oportunidades de negócios com acessibilidade. Falando em números, segundo dados do IBGE, mais de 45 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência – quase 25% da população total do país.

Por isso, na hora de pensar na estrutura e estratégia de um negócio, é essencial que essa parcela da sociedade também seja considerada. Donos de empresas que se preocupam com acessibilidade têm em mente que pessoas com deficiência também são consumidoras e, no final das contas, vão preferir gastar seu dinheiro em lugares que as receba bem e que sejam inclusivos.

Sabendo disso, uma outra forma de aproveitar todo esse potencial econômico é utilizando a tecnologia para criar soluções voltadas à inclusão. Essa prática tem nome: tecnologia assistiva.

Esse tipo de inovação representa o conjunto de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de PCDs (pessoas com deficiência), incapacidade ou mobilidade reduzida, podendo variar de uma simples bengala a um sistema computadorizado.

Fundada há mais de 10 anos pelos sócios Guilherme Lira e João Beirante, a Tecassistiva desenvolve tecnologias voltadas para pessoas com deficiência, com projetos realizados no Brasil e no exterior.

Dentre as soluções que a empresa comercializa está o JAWS, um software de leitor de tela para o Windows que possibilita usuários cegos e pessoas com baixa visão lerem a tela por meio de uma saída de texto para voz ou um dispositivo Braille.

“Nossos produtos são sincronizados com o melhor da tecnologia disponível no mundo e transformam para melhor a vida das pessoas em milhares de empresas, universidades e bibliotecas do Brasil” Guilherme Lira e João Beirante

Aplicativos como o Guia de Rodas e softwares como o JAWS trazem mais autonomia para PCDs, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Para a Microsoft, contar com essas empresas parceiras que têm acessibilidade e inclusão como negócio faz com que a tecnologia tenha uma grande responsabilidade em capacitar pessoas de todas as habilidades a conquistar mais.

Alessandro Bueno, líder de acessibilidade da Microsoft, destaca a importância da preocupação das empresas em criar soluções que reflitam a diversidade de seus colaboradores e clientes. “A acessibilidade deve ser parte do processo de desenvolvimento de todos os produtos de uma organização. O Office 365, por exemplo, além de ser uma ferramenta de produtividade, é a mais abrangente na adaptação dos seus usuários”, garante Bueno.

Em soluções como Word, PowerPoint e Outlook, é possível verificar a acessibilidade do documento para garantir que todos possam colaborar com o arquivo, independentemente se as pessoas conseguem enxergar o conteúdo ou não.

Já o Skype permite ultrapassar barreiras linguísticas com amigos, familiares e colegas. O reconhecimento de voz da ferramenta possibilita fazer chamadas com tradução automática de voz e de texto. Conheça aqui mais recursos inclusivos do Office 365 e do Windows 10.

Desafios no cenário brasileiro

Apesar de todos benefícios comerciais, colaborativos e sociais, a adoção de iniciativas de acessibilidade e inclusão nem sempre é colocada em prática pelas empresas. “Infelizmente, ainda não são corriqueiros os casos em que uma empresa ou instituição oferecem bons recursos para a pessoa com deficiência trabalhar ou estudar”, lamentam Lira e Beirante.

No segmento da educação, por exemplo, a Tecassistiva foi responsável pela entrega de mais de 7 mil impressoras Braille em escolas de todo o Brasil. Mesmo assim, ainda há resistência no setor em oferecer bons recursos para o aluno cego crescer com autonomia. “O estudante fica aprendendo Braille em máquina de escrever, o que não é o melhor para ele”, observam os sócios da empresa.

A utilização das ferramentas certas estimula o potencial de produtividade das pessoas, favorecendo sua vida acadêmica, profissional, social e cultural.

Mesmo com as dificuldades em implementar ações inclusivas nas companhias, o interesse  nesse tipo de prática tem crescido cada vez mais, o que torna o cenário no país promissor. “Vejo com otimismo a evolução do tema dentro das empresas, porém muitas delas ainda se atêm apenas ao discurso e não a medidas efetivas. De qualquer forma, é evidente o avanço”, salienta o fundador do Guia de Rodas, Bruno Mahfuz.

Foco na inclusão

Uma das grandes barreiras para implementar ações inclusivas é encontrar interlocutores nas organizações que estejam alinhados com a visão da acessibilidade como diferencial estratégico e competitivo. Em muitos casos, uma boa dica é criar parcerias com empresas especializadas para dar consultoria de melhorias e inclusão, assim como para avaliar o ambiente de trabalho a fim de encontrar pontos de risco ou de ajustes.

A i.Social é uma consultoria com foco na inclusão social e econômica de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Fundada em 2000, a empresa já inseriu mais de 18 mil pessoas com deficiência nos mais diversos tipos de companhias.

Para Jaques Haber, sócio fundador da i.Social, o trabalho é a melhor forma de inclusão na sociedade. “Ao ser incluído no mercado de trabalho, o profissional se empodera, se sente ativo, produtivo, ganha poder aquisitivo, circula mais e convive com outras pessoas, o que naturalmente contribui para o processo de conscientização da sociedade como um todo”, pontua o empreendedor.

Responsável por um banco de 120 mil currículos, a consultoria adota uma metodologia de trabalho que contempla ações voltadas não somente para a inclusão de PCDs, mas também para desenvolvimento, crescimento e permanência desses indivíduos nas organizações.

Essa metodologia visa diminuir um número destoante relacionado à população de pessoas com deficiência no Brasil. Apesar de 25% dos país ser formado por PCDs, somente 1% do total de carteiras assinadas no Brasil é composto por essa parcela da sociedade.

De acordo com a pesquisa Expectativas e Percepções sobre o Mercado de Trabalho para PCDs, realizada pela i.Social, pessoas com algum tipo de deficiência encontram duas vezes mais dificuldades para entrar no mercado do que as que não têm deficiência. Além da baixa oferta de vagas, existe um forte índice de resistência por parte das empresas em contratá-las.

Em outro estudo realizado pela empresa, foram indicados os principais obstáculos inerentes ao processo de inclusão no trabalho. As categorias mais citadas foram: Falta de acessibilidade 59%, Foco exclusivo no cumprimento da cota 46%, Baixa qualificação das PCDs 40% e Falta de preparo dos gestores 35%.

Observa-se que, em grande parte, a principal barreira está, de fato, dentro das empresas. Portanto, mudar o mindset de cada companhia para que acessibilidade e iniciativas de inclusão sejam vistas como prioridades se tornou essencial, tanto para o público interno de uma companhia quanto para seus clientes.

Até porque, no final das contas, quanto mais diverso o quadro de colaboradores de uma empresa, mais criatividade e inovação ele gera. Um estudo da DDI World com mais de 2 mil empresas em 54 países analisou lideranças e constatou que esses profissionais têm duas vezes mais chances de trabalhar de forma colaborativa e de criar novas soluções e oportunidades quando estão em um ambiente diverso. A avaliação indicou ainda que esses líderes não têm habilidades diferentes da média, apenas as usam de maneira diferente.

“O ponto principal é fazer com que fique cada vez mais claro o valor da inclusão e da diversidade para as organizações” Jaques HaberAndrea Schwarz e Jaques Haber, fundadores da i.Social

 

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